Produzir lichia fora do período tradicional de dezembro e janeiro é um desafio que envolve técnica, planejamento e principalmente manejo adequado da florada e da maturação. Em visita à região de Guararema, no Vale do Paraíba, o TV Sítio acompanhou de perto como produtores conseguem colher a fruta até o fim de fevereiro.
A lichia é conhecida por ser uma fruta típica de fim de ano, muito associada ao Natal. No entanto, segundo o engenheiro agrônomo João Vinicius Vecchia, é possível estender a safra por meio de um pegamento de florada mais uniforme e da condução adequada dos frutos.
Uma das técnicas utilizadas é o chamado “travamento” da maturação. O processo consiste na aplicação de um produto natural que reduz a liberação de etileno, hormônio responsável pelo amadurecimento. Com isso, o produtor consegue segurar a fruta no pé por mais tempo, escalonando a colheita e aproveitando momentos de menor oferta no mercado.
O clima é fator determinante. Regiões mais frias permitem esse manejo com maior eficiência. Em locais muito quentes, o controle da maturação torna-se mais limitado.
Variedades e mercado
Entre as variedades cultivadas, a Bengal é a mais produzida comercialmente no Brasil, destacando-se pela coloração vermelha intensa, tamanho e sabor mais doce. Já a Pink, mais precoce, apresenta coloração alaranjada e boa aceitação em regiões quentes, podendo entrar no mercado até dois meses antes da Bengal. Outras variedades como Big são indicadas para regiões mais quentes, como o Nordeste.
A escolha correta da variedade, aliada à adaptação ao clima local, é determinante para o sucesso produtivo. Algumas cultivares não se desenvolvem bem em determinadas regiões, enquanto outras apresentam excelente desempenho quando bem posicionadas.
Manejo da planta
Diferente de outras frutíferas, muitos pomares de lichia não recebem poda frequente, especialmente quando há espaço suficiente para o desenvolvimento natural das plantas. A frutificação ocorre nas pontas dos ramos, o que explica o aspecto curvado dos galhos carregados.
Entretanto, podas drásticas podem comprometer a produção por até três anos, especialmente na variedade Bengal. Por isso, quando necessária, a poda deve ser técnica e cuidadosa.
Entre as principais pragas da cultura estão o ácaro da erinose, brocas, percevejos, mosca-das-frutas, formigas e até aves como maritacas, que atacam frutos maduros.
Propagação por alporquia
A produção de mudas é feita principalmente por alporquia. O método consiste em anelar o ramo, envolver com substrato úmido e aguardar o enraizamento, que ocorre em cerca de três meses. A principal vantagem é que a nova planta mantém exatamente as características da planta-mãe, garantindo padrão produtivo. A entrada em produção ocorre entre quatro e cinco anos após o plantio.
Colheita e pós-colheita
Colher lichia em plantas que chegam a cinco ou seis metros de altura exige técnica e cuidado. O uso correto da escada, iniciando a colheita de cima para baixo, ajuda na segurança e na eficiência. Um bom colhedor pode chegar a 80 ou 100 caixas por dia, com aproximadamente 13 quilos cada.
O corte do cacho com tesoura garante melhor brotação para a safra seguinte, ao contrário da quebra manual do galho, que prejudica a uniformidade da próxima produção.
Após a colheita, as frutas passam por seleção criteriosa, destacando-se a importância da coloração homogênea e da firmeza da casca. Frutas com partes esbranquiçadas, conhecidas como “barriga verde”, tendem a apresentar menor doçura. Tecnologias de manejo permitem elevar o teor de açúcar, aumentando a qualidade final.
A apresentação também faz diferença. A organização cuidadosa nas embalagens agrega valor e chama a atenção do consumidor final, peça-chave para a rentabilidade do produtor.
Estender a colheita até fevereiro não significa apenas preço melhor, significa estratégia de mercado, fidelização de clientes e diferenciação em um período de menor oferta.